DIA DO TURISMO - “Você produz e o turismo coloca o comprador na sua porta”, Tarcísio Michelon


Foto: Arquivo pessoal

Referência no turismo da Serra Gaúcha, o empresário Tarcísio Michelon está envolvido neste setor há quatro décadas. Em 1980, quando retornou a Bento Gonçalves após ter se formado em Engenharia Mecânica e trabalhado por 10 anos em uma multinacional, ele já enxergava o futuro promissor que resultou no presente que vivemos hoje. A cidade serrana é o principal destino enoturístico do país e se transformou, também, pelo trabalho de conscientização de Michelon, que sempre acreditou no setor. Para celebrar o Dia do Turismo, o G30 o convidou para uma conversa e, a partir de agora, apresenta a visão dele sobre essa próspera indústria.


Lá em 1980, quando tomou a decisão de trabalhar com turismo, Michelon foi em busca de uma resposta. Chegou para a mãe, que tinha uma trajetória com a hotelaria, e perguntou: “Do que os turistas gostavam no teu tempo?”. A resposta dela é o que o conduz até hoje. “A minha mãe disse: ‘eles gostavam do que era nosso’. O turista gosta da nossa cultura, é por isso que turismo e cultura precisam andar juntos”, conta. E em seguida, emenda uma definição para a Serra Gaúcha: “Nós não somos uma região de commodities. Se quer commodities, vai para o Mato Grosso. Nós somos uma região de inteligência, as profissões que os nossos antepassados tinham são o valor do nosso turismo”.


Profissões, foi nessa palavra que ele ancorou a criação da rota Caminhos de Pedra, em Bento Gonçalves, uma das suas muitas iniciativas. Na visão do empresário, se você pegar a profissão de antigamente e atualizá-la, vai ter uma “novidade bárbara”. Para exemplificar, cita três casas do roteiro. “A Casa da Ovelha é bacana porque nós pegamos uma ovelha moderna e aproveitamos a cultura dos criadores de outros tempos. Temos a ovelha nova, de leite, mas oferecemos uma experiência ao visitante. O turista paga mais pelo que ele sabe de onde vem e por que é mais caro. Ele paga o iogurte da Casa da Ovelha, que custa R$ 12, porque ele viveu a experiência, entendeu as vantagens para a saúde e o trabalho que existe para produzir”, explica.


A autenticidade e a profissão de antigamente aparecem com clareza no exemplo da Casa do Tomate: “Eu perguntei para a mulher que vivia lá naquela casa: ‘do que a senhora gosta?’. Ela respondeu que gostava de tomate. Então tem que lidar com tomate. Hoje, são mais de 60 subprodutos feitos com tomate”. Para finalizar os exemplos, Michelon cita a Casa do Sabão, que traz para os sabonetes e perfumes de hoje a tradição de quem fazia sabão em casa no passado. E ainda vai mais longe: “Quando as nonas, lá no passado, faziam crochê, macramê, lidavam com os fios, aquilo não tinha valor porque todas faziam. Hoje, isso é história, é cultura, os turistas pagam. Houve um tempo em que as pessoas da cultura não olhavam com bons olhos para o turismo. Depois, entenderam que não tem como dissociar”.


Segundo o empresário, em Bento Gonçalves, o turismo tem que andar junto, também, com a fabricação e a venda de vinho. Na visão dele, os moradores da Serra Gaúcha trouxeram no seu DNA a grande capacidade de fazer, herdada dos imigrantes. Porém, não sabem muito bem como vender. E é ali que entra o turismo. “Quando eu cheguei em Bento, em 1980, tinham oito vinícolas registradas; hoje, tem 80. Quem vende o vinho é o turismo. Você produz e o turismo coloca o comprador na sua porta”. Porém, ele ressalta, é preciso mais investimento do poder público em todas as esferas. Segundo o empresário, turismo não dá voto e, por isso, os governantes não apostam. Esse é um dos grandes desafios.


Olhando para a iniciativa privada, ele reforça que, sim, o turismo tem crescido, dá retorno, mas é preciso acertar em alguns pontos. O primeiro deles é a localização. “Se você quiser colocar um negócio turístico, escolha bem o lugar, aposte em um roteiro que esteja consolidado ou crescendo. E além disso, há um segundo fator muito importante, a sabedoria que os nossos antepassados tinham: calma e tempo. Eu posso citar muitos exemplos de pessoas que tiveram lucro após 10 anos. Acreditaram, seguiram e o lucro veio lá na frente. Se um negócio der lucro nos dois primeiros anos, foi sorte, não é assim. Precisa investir e ter paciência para esperar”.


A pergunta se, tendo a paciência e o lugar adequado, este é um bom momento para investir em um negócio turístico nem precisou ser feita. Naturalmente, durante a entrevista, Michelon contou que comprou uma pequena locomotiva de Maria Fumaça que estará em um parque infantil que ele está criando. E aqui, outro ensinamento: “Você precisa segmentar o negócio, turismo geral, não. Qual será o seu nicho? Eu vou investir em um parque infantil porque eu aprendi algo nesses 40 anos. Nós vivemos a época patriarcal, em que o pai decidia onde a família passaria as férias. Depois, veio a matriarcal, em que a mãe passou a tomar essa decisão. Hoje, estamos na ‘filhiacal’, são os filhos que mandam nas férias”. Se com 40 anos de experiência, respeito da região toda e considerado uma referência em turismo, Michelon está investindo no setor, a resposta está dada.

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