MANIFESTO PELO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DO VALE DOS VINHEDOS E DA SERRA GAÚCHA

Vale dos Vinhedos - Foto: Acervo Aprovale

Há cinco anos, o G30 Serra Gaúcha foi criado para trabalhar pelo ecossistema do turismo desta importante região do Rio Grande do Sul. Desde então, tem reunido o trade para falar de demandas, celebrar conquistas e planejar ações rumo a um objetivo muito claro: tornar a Serra Gaúcha, até 2030, o destino mais estruturado, desejado e sustentável do Brasil.

Cumprir essa meta passa, necessariamente, pela atração e pelo crescimento de empreendimentos turísticos. Por isso, fazemos questão de deixar muito claro neste documento que não somos contra a instalação de novos negócios, muito pelo contrário. No entanto, reforçamos que nenhum empreendimento é uma ilha, todos estão inseridos em um ecossistema que precisa ser olhado em meio ao seu contexto. É a partir desse raciocínio que divulgamos agora o nosso posicionamento a respeito das discussões sobre os novos empreendimentos que pretendem se instalar no Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves.

Não temos dúvidas de que cada um deles é capaz de gerar renda, desenvolvimento, empregos e boas experiências para os turistas. Também não temos dúvidas de que, com planejamento e cuidado, a multipropriedade é um modelo de hotelaria que pode ser benéfica à região, trazendo, por exemplo, fluxo todos os dias da semana. Porém, ela pode gerar efeitos indesejados. Para exemplificar essa posição, pegamos emprestada uma frase de Caio Calfat, importante personalidade desse setor: “A multipropriedade pode construir ou destruir um destino”. Queremos, é claro, que ela construa muitos. E não destrua nenhum. Há caminhos para que essa vontade seja atendida.

Estando claro que não somos contrários aos empreendimentos em si, ao crescimento dos destinos e à multipropriedade, passamos aos nossos argumentos para defender que, neste momento, se pare com os avanços a respeito das autorizações de novos empreendimentos e se converse, como sociedade civil organizada, para avaliá-los não de forma isolada, mas dentro do ecossistema onde pretendem se inserir.


a) O Vale dos Vinhedos tem cerca de 80 quilômetros quadrados de extensão e precisa que boa parte dessa área seja coberta por vinhedos. Essa necessidade está ligada à preservação da paisagem, à atração de turistas, à manutenção da Denominação de Origem (DO) e à identidade que faz dele referência em enoturismo do Brasil. Sabemos que, isoladamente, cada empreendimento não ocupa uma grande área, mas reforçando que temos que pensar em contexto, se autorizados, abrirão um precedente para os próximos que virão (sabemos de pelo menos outros cinco grandes projetos que esperam aprovação). Para efeitos de comparação: a ilha de Veneza tem 5 vezes mais área, mas você imaginaria sete grandes resorts lá dentro?


b) A multipropriedade acelera de forma muito rápida a oferta de leitos e, consequentemente, a chegada de turistas. Queremos mais turistas? Sim, queremos, mas que estrutura vamos oferecer a eles e à comunidade que lá já habita? Enquanto o número de visitantes cresce muito rápido, o saneamento, a mobilidade e outras questões não crescem na mesma velocidade. O Vale dos Vinhedos não tem estrutura para absorver o movimento decorrente de novos grandes empreendimentos. E temos um exemplo claro disso: Gramado. Por lá, a multipropriedade chegou muito acelerada, sem critérios, e os problemas estruturais que já existiam foram amplificados. Em Bento Gonçalves, temos a chance de evitar esse mesmo desfecho.


c) O que aconteceu em Gramado tem relação com um fato que nos preocupa em relação ao Vale dos Vinhedos. Na cidade das Hortênsias, os conselhos são consultivos, não têm poder de veto. E quem atua no mercado de lá afirma que esse foi um passo decisivo para que se perdesse o controle na aprovação de muitos empreendimentos gigantescos em pouco tempo. Um destino com problemas sérios de mobilidade, energia, saneamento não se sustenta. E aí entende-se como a falta de planejamento pode destruí-lo. Por isso, nos manifestamos totalmente contrários ao projeto que tramita na Câmara de Vereadores de Bento Gonçalves com o objetivo de tirar o poder deliberativo dos conselhos. A comunidade do Vale dos Vinhedos não pode perder o seu direito de opinar sobre o que quer ou não que aconteça por lá. Sempre defendemos a união e o diálogo e não concordamos com cerceamento.


d) A conta do que pode acontecer com o Vale dos Vinhedos virá e será tarde para lamentar. Não estamos dizendo que esses empreendimentos precisam sair de Bento Gonçalves, apenas indicando que se aproveite este momento para discutir critérios e avaliar o todo. O que será feito para resolver os problemas que serão gerados? Onde mais, dentro do território bento-gonçalvense, sem que seja em meio a vinhedos que precisam ser preservados, eles podem ser instalados? Que tipo de alternativa existe para que se concilie desenvolvimento e preservação?

Com esse manifesto, o G30 Serra Gaúcha, que fortemente atuou pela retomada do turismo na pandemia pregando união, conclama todas as entidades da Serra Gaúcha, não apenas as de Bento Gonçalves, para que sensibilizem os órgãos públicos para um retorno ao início, com o objetivo de melhorar o planejamento. Sabemos que há limites entre municípios, início e fim de roteiros. Mas, sabemos também, que o turista vem para a Serra e é isso que importa. Somos uma única região e, unidos, sempre evoluiremos mais. Esse assunto não é apenas do Vale dos Vinhedos, é da Serra Gaúcha. É esse destino que está nas nossas mãos, porque se houver uma despreocupação com a identidade do Vale dos Vinhedos, o precedente se espalhará para as demais cidades.

Este é o momento de parar, conversar, antever problemas e discuti-los tecnicamente. Colocamo-nos à disposição dos empreendedores, vereadores, Prefeito e Secretários, Conselho Distrital e demais atores para diálogos sobre o tema. Nós podemos planejar melhor.


Serra Gaúcha, 31 de março de 2022.

Thomas Fontana CEO do G30 Serra Gaúcha

thomas.fontana@g30serragaucha.com

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