"Nunca vivemos um momento tão promissor quanto esse"

Atualizado: Set 16


Foto: Arquivo pessoal

Quando fala que "o turismo não precisa de um teto e quatro paredes para acontecer", Ivane Fávero carrega junto com essa frase mais de 30 anos de atuação, diversas formações, duas décadas de gestão pública, consultoria a empreendedores e muita conversa com turistas. Talvez seja por isso que quando ela se manifesta, o trade sempre para e escuta. Na entrevista de quase uma hora para o G30, ela complementou a afirmação acima: "Empreender no turismo, muitas vezes, é olhar para o céu que nos protege e para a natureza que nos abençoa e, a partir daí, criar experiências valorosas”.

A história dela com o turismo inicia em 1988, quando saiu de Bento Gonçalves para fazer graduação na PUCRS, e está longe de terminar. Foram anos nas prefeituras de Bento - onde criou o primeiro Orkut de um destino turístico no Brasil - e Garibaldi, nas salas de aula como aluna e professora e, é claro, ao lado de quem faz turismo no Estado do Rio Grande do Sul como consultora. Hoje, a gestão pública e a educação ficaram para trás, mas o trabalho de consultoria segue e ganhou, há cinco anos, uma companhia. “Hoje, eu também sou blogueira, e isso não é só mais um hobby, às vezes somos contratados, é um negócio. Eu virei influencer”, conta, aos risos.

Sim, Ivane também é uma influencer, ao lado do marido, Rômulo Freitas. No Instagram, o Viajante Maduro tem mais de 34 mil seguidores e a produção de conteúdo não para. “Eu criei o blog, e era para ser só o blog, por dois motivos. O primeiro é que eu não dava mais conta de atender a pedidos de dicas, então pensei, vou escrever no blog e falo para as pessoas lerem lá. O segundo é que depois de tantos anos como turismóloga, eu queria ser turista com o meu marido, era a hora de viajarmos. Saí da gestão pública depois de 20 anos e então começamos a aproveitar”.


Porém, o Viajante Maduro, que nasceu para ajudar casais maduros em viagens, cresceu mais do que o esperado e virou o seu segundo negócio. “Pode parecer que a consultoria e o blog não conversam, mas eles conversam, sim. É importante você ter em mente que não pode fazer uma coisa só. Eu sempre fui múltipla, e a pandemia deixou mais claro o quanto isso é importante”, ensina. Pois é, a pandemia. Ivane sentiu o baque? Eis a resposta: “Claro! Eu estava com o meu ano de 2020 todo cheio de atendimentos coletivos e caiu tudo por terra. Mas eu tenho um mantra: reconheça o problema e foque na solução. Não dá para ficar brigando, eu entendi a situação e comecei a procurar ferramentas e a estudar uma metodologia para fazer meu trabalho de forma virtual. Deu certo. Foram 20 planos municipais de turismo virtuais em 2020 e será mais ou menos esse número neste ano”.

Adaptação e melhoria contínua. O que Ivane aplicou na sua vida durante a pandemia é o que ela acredita que o turismo precisa. Cita as três palavras “mágicas" que fazem com que ele aconteça e explica cada uma. “A primeira coisa que você precisa entender é que o turismo é feito com união. Não pode pensar só da porta pra dentro. Você precisa qualificar a oferta para ter um destino turístico. A segunda é planejamento, saber para onde ir e deixar claro para todos os envolvidos qual é o seu papel. A terceira é ação. E nesse caso, é trabalho duro, todos os dias, para estruturar o negócio, promover e atrair turista. Nunca tem fim, você tem que sempre achar algo novo, estruturar melhor, inovar”.

Até porque, segundo ela, o turista também muda. E ele está muito mais exigente em questões de sustentabilidade, por exemplo. “O turista quer ajudar a construir um lugar melhor para se viver e exige responsabilidade de quem o recebe”, reforça. Para ela, essa é uma preocupação fundamental nesse momento em que começamos a viver um boom, com o início da retomada. Ivane destaca que o Rio Grande do Sul está no seu melhor momento, porque as viagens começaram devagar, e os gaúchos estão visitando eles mesmos. “Nunca vivemos um momento tão favorável para consolidar destinos internos. O comportamento do turista mudou. Antes, ele ia apenas para lugares consagrados; hoje, está aberto a viver uma nova experiência e até se arriscar em um novo destino que ainda não está 100% estruturado, porque, por outro lado, oferece autenticidade, cultura, uma experiência mais intimista e sem aglomeração”, explica.

Como consultora, ela tem atuado de perto em destinos novos e afirma que, com trabalho duro e promoção, o resultado vem. Com o blog, também consegue ter essa visão e, principalmente, a satisfação de ajudar tanto viajantes que buscam por dicas de lugares novos, quanto os próprios empreendimentos a receberem pessoas por meio da divulgação dela. “Isso me dá uma satisfação enorme”. Questionada sobre como está o mercado em lugares já consolidados, ela garante que há espaço para mais empreendimentos. E faz uma consideração importante: “É preciso olhar o que falta nesse mercado”. E o que falta por aqui? Ivane responde: “Tanto pelas consultorias quanto pelas mensagens do blog, eu percebo que faltam lugares com atividades para famílias com crianças e, principalmente, para quem viaja com pets de médio e grande porte. Também precisamos investir mais em compras, há um déficit de produtos com uma identidade local e qualificados”.

E ao falar sobre tendência, ela cita as atividades ao ar livre, que se fortaleceram na pandemia, mas já estavam nas suas consultorias antes de o coronavírus chegar por aqui. “Eu sempre falava: onde mora o turista? Onde ele trabalha? Como ele se locomove? A maior parte mora dentro de um pequeno apartamento, trabalha em um lugar fechado, com iluminação artificial, enfrenta todos os dias um trânsito caótico. Quando ele sai, o que ele quer? O oposto disso, a experiência ao ar livre”. Também por isso ela acredita que o enoturismo vai seguir se fortalecendo. Além de já ter esse tipo de oferta antes da pandemia, também já trabalhava com regras sanitárias. E aconteceu um fenômeno importante durante a virada para a vida virtual. "Passamos a conhecer enólogos, donos de vinícolas, eles se expuseram em lives e ensinaram sobre vinhos. Isso fortaleceu muito o enoturismo”.

Para fechar a conversa, perguntamos sobre o futuro próximo, fim deste ano, início do ano que vem. Ivane está otimista. “O boom total ainda não aconteceu, tem pessoas com medo, esperando, mas elas viajarão conforme a vacinação avançar. E o que elas querem é segurança e bem-estar. Esse é o turismo do momento: receba as pessoas com responsabilidade, sem imediatismo, e faça com que elas se sintam bem. Se o objetivo for atingido, elas vão voltar”. Está aí a dica valiosa de quem tem mais de 30 anos de experiência.

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