"Prevemos um fluxo turístico sete vezes maior do que antes da pandemia", diz o presidente da Uvibra

Atualizado: 12 de set.


Foto: Arquivo pessoal

Por trás de parte do desenvolvimento econômico de Bento Gonçalves e do fato de o município ter se tornado a referência em enoturismo do Brasil, está uma cena que se repete diariamente. Pelos quatro cantos da cidade, pessoas acordam cedo, percorrem caminhos paralelos que desenham uma paisagem digna de uma obra de arte e vão cuidar do parreiral. É lá, na parreira, que começa a nascer um bom vinho. É de lá, da lida com a uva, que saem tanto os recursos que contribuem para a economia, quanto os motivos que estimulam visitantes de todo o país a passarem pela Pipa Pórtico e entrarem nesse lugar encravado na Serra Gaúcha.

Daniel Panizzi sabe disso. O novo presidente da União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra) sabe, também, o tamanho da responsabilidade que assumiu para os próximos dois anos. Por isso, ao conversar com ele, logo ficam claras três posturas: foco, trabalho duro e respeito à história de uma entidade que já acumula 55 anos de conquistas. “A Uvibra sempre teve dois pilares de trabalho contínuo, que estão na sua essência: a tributação e as mudanças necessárias na Lei do Vinho. Eles continuarão sendo trabalhados de forma permanente”, diz, logo no início da entrevista.

Em seguida, emenda uma reflexão importante: “Mais do que brigar pela redução de tributos, que sabemos que é algo complicado de conseguir no Brasil, nós trabalhamos para que esses impostos, de alguma forma, sejam revertidos em incentivo ao produtor de uva e à comercialização”. Entre as conquistas que já são comemoradas antes de ele assumir, Daniel destaca a retirada da substituição tributária de diversos Estados, incluindo Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro. O foco agora é Minas Gerais.

Ao falar da Lei do Vinho, cita o paradoxo que há entre a velocidade nas mudanças de mercado e de legislações. “Fazer uma alteração na lei é algo muito moroso, e o mercado está sempre mudando. A Uvibra cumpre o papel de estar constantemente mandando solicitações para que possamos atingir o objetivo de aumentar o consumo de vinho, espumante e suco de uva de forma consciente”, afirma. Ele explica que é preciso evoluir em relação à regulamentação. A intenção da entidade é que o consumidor saiba exatamente o que está tomando e, para isso, é preciso que os rótulos estejam corretos, as nomenclaturas sejam adequadas. “O que é reserva? O que é gran reserva? O consumidor precisa saber. Não achamos que ele esteja tomando um produto fraudado, não é isso, o que precisamos é que seja regulamentado, que todas as normas sejam seguidas. Hoje, há descontrole”, completa.


Para que esses pilares possam render ainda mais conquistas, ele tem uma meta na sua gestão: buscar mais associados, especialmente fora do Rio Grande do Sul. Daniel acredita que quanto mais a entidade mostrar que a produção de uva está espalhada por 10 estados brasileiros, mais força ganha ao pleitear suas reivindicações. “Há alguns anos, a produção de uva do Rio Grande do Sul representava 90% do que era produzido no Brasil. Hoje, um relatório da Secretaria Estadual da Agricultura mostra que está em 50%. Temos que trazer associados desses outros lugares, para que a cadeia chegue no governo com representatividade e propriedade”.

Tudo isso, é claro, está relacionado ao início desse texto. Nesses 55 anos, a Uvibra sempre esteve muito perto da ponta, do produtor de uva, por saber que é a partir da matéria-prima de qualidade que se produz bons vinhos, se ganha mercado e se educa os consumidores. “Há mais de 20 anos, se faz campanhas promocionais, é um trabalho de muitas pessoas, e hoje estamos começando a colher. O conceito do vinho brasileiro está muito bacana, positivo, não há mais resistência em vender o nosso produto”, ressalta Daniel.

Para manter essa curva de disposição do consumidor em optar pelo vinho brasileiro na ascendente, Daniel reforça dois pontos: maior investimento em propaganda e continuidade do trabalho por um manejo bem feito na videira. “Temos dados que, em um ano, Portugal investiu R$ 15 milhões em campanhas para promover os seus vinhos dentro do Brasil, é um valor muito maior que o nosso. Argentina e Chile também investem mais do que nós”, exemplifica. O Rio Grande do Sul tem o Fundovitis, destinado a "custear e financiar as ações, projetos e programas da vitivinicultura no RS”, conforme consta no site da Secretaria da Agricultura. Para Daniel, os outros Estados precisam enxergar a importância desse fundo e criar os seus.

Em uma das pontas, campanhas. Na outra, incentivos para que a uva tenha altíssima qualidade. Segundo ele, o Rio Grande do Sul tem quase 20 mil famílias produtoras de uva, e a roda precisa girar, é preciso que a safra seja comprada pela indústria e o vinho seja vendido na outra ponta. E qual é o cenário? “Nas uvas viníferas, o crescimento vem acontecendo e, com a alta no consumo do vinho, a tendência é que a produção aumente. Nas americanas, há casos de estoque remanescente de safra nos vinhos de mesa e no suco de uva, estamos olhando para isso com preocupação. Precisamos levar o suco de uva para além das escolas, mostrar os benefícios e colocar na mesa dos adultos também, suco de uva é uma vitamina”, reforça. Em relação ao espumante, só comemoração. “O baque com a parada dos eventos na pandemia já foi todo recuperado, o espumante está vendendo muito bem. As pessoas começaram a entender que ele não é restrito a brindes e festas, que dá para consumir uma taça em casa, e as ações de promoção nesse sentido precisam seguir e serem intensificadas”.

Entre esses adultos, é claro, estão os turistas. O enoturismo está vinculado à toda cadeia e se beneficia de cada uma dessas etapas, desde o manejo na parreira que melhora a matéria-prima, passando pela regulamentação na indústria até a promoção da venda. Por isso, não há como falar do turismo em Bento Gonçalves sem que esse ciclo todo esteja funcionando bem. O G30 Serra Gaúcha tem essa consciência e trabalha ao lado do setor. “O enoturismo é fundamental, e a previsão para este ano é termos um fluxo turístico sete vezes maior do que antes da pandemia, e aí, todos se beneficiam, não só a indústria do vinho, mas os restaurantes, os hotéis”.

Hoje, o consumo de vinho no Brasil está em 2,7 litros per capita. Esse volume é baixo, sem dúvidas, mas Daniel está otimista. “Com todos trabalhando juntos e focados, vamos aumentar esse número”. Nós não temos dúvidas e já preparamos o espumante. Esse brinde vai acontecer.

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